Archive for Maio 2013

Intenções ou Pretensões


.




Ser recatada no século 21 é bastante incomum. Agregar muitos valores e princípios é ainda mais. Helena convivia facilmente com seu próprio modo de vida. Enquanto seus amigos se divertiam perdendo todo o senso-comum no álcool ou fumo, ela se satisfazia ao caminhar até o cinema do shopping. Encontrava alguém às vezes que lhe fizesse companhia, mas se isso não acontecesse não era motivo de deixa-la desanimada.
Apesar de Helena não participar dos mesmos programas e hábitos que os outros jovens de sua idade, ela não era tão doce quanto parecia. Aliás, nunca parecia doce. A verdade era sempre dita de forma natural, mesmo que fosse um pouco inconveniente. Não havia hesitações quanto a sua posição em qualquer assunto ou situação. Apesar de suas virtudes, ela era desconfiada em se tratando de afeições.
Deitada sobre o sofá pequeno e com um livro nas mãos, refletia. Esse tempo todo repeliu qualquer sentimento afetivo. Agora, era inundada pela dor. Decidiu-se então, naquele momento consigo mesma a destruir qualquer expectativa. Ela queria arrancar toda a dor e angústia que sentia, esquecer tudo. Mas percebeu que este não era seu desejo. Ela queria agarrar-se àquela dor com todas as forças de sua alma. E viver cada momento, cada lembrança em seu pensamento. Não podia ignorar aquilo. A dor ainda sim era melhor do não sentir nada. A dor ainda faria seu coração bater. Mesmo que qualquer ato fosse inútil, bastava agora a espera. Ela queria sentir essa dor.
“Não te dei atenção naquela época.” — pensou. Mas sabia que talvez fosse tarde e não entendia porque só agora era receptível a gostar de alguém.
O telefone tocou. Helena largou o livro no chão e puxou o aparelho até a orelha.
— Alô!
— Gabriel?
— Oi Helena! Tudo bom?
— Aham... E você?
— Tudo bem... Então... Você não quer ir ao cinema?
— Não, não quero. Por quê?
— Há, Há, Há...
Ela esperava em silêncio enquanto ele ria desconsertadamente.
— Então... Vamos?
— Então... Não dá. Se era um convite, obrigada.
— Ahn... ok...
— Ok! Boa noite! — disse entusiasticamente por fim e desligou.
Mas ainda assim encarava o celular. Por que Lucas não ligava? Por que ele não queria estar com ela? Por que tinha que ser assim?



(Um texto velhinho que eu encontrei...)